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12 dicas para avaliar um barco

12 dicas para avaliar um barco

Como aproveitar ao máximo o seu test-drive? Para começar, não gaste o seu tempo, nem o dos estaleiros ou representantes, testando qualquer barco que der na telha. Antes de solicitar um test-drive, você deve ter feito a sua pesquisa, virtual ou real, e estar a ponto de poder fazer uma oferta firme ao vendedor – dependendo apenas do resultado do teste. Porém, a qualidade da navegação não é o único critério que deve ser avaliado. Há muito mais a ser observado durante a navegação do que é possível ver no Show Room. Leia, a seguir, as nossas 12 dicas para aproveitar bem seu test drive. 

1 – Tipos de motorização
Se está comprando um barco usado, obviamente, o motor instalado é o que você vai comprar. Mas, para barcos novos, peça para testar um barco com a motorização da mesma marca e modelo da pretendida. Isso é importante, especialmente em relação à carga a bordo. Em situação de testes, normalmente o barco está leve, diferentemente da vida real, onde não é incomum que o barco tenha muita gente e tralha a bordo, e os tanques cheios. Então, se o barco-teste tem uma performance aquém do que imagina, encomende o seu com uma motorização mais forte. Leve em conta também que a escolha da motorização deve considerar aspectos como facilidade de serviço e de guarda (seco, molhado, carreta, etc) além dos mais tradicionais: velocidade, conforto, eficiência e manobrabilidade. 

2 – Eletrônicos
Se comprar o barco, no dia da entrega ligue todos os equipamentos eletrônicos instalados, e certifique-se que estão operando apropriadamente. Mas, se for um test-drive, observe a visibilidade das telas, quando estiver pilotando. Faça-o com o sol à sua frente e pelas costas, para verificar a ausência de reflexos. Se houver a possibilidade de abrir ou retirar capotas, teste a visibilidade com a mesma aberta/removida. Cheque o funcionamento da sonda de profundidade em todas as velocidades. Veja também como ela se comporta em águas mais rasas, perto da marina. Se o sinal não for constante, pode haver problemas na instalação.

3 – Velocidade de planeio
Um bom teste a ser feito navegando é a mínima velocidade de planeio. Todo mundo sabe que, ao diminuir a velocidade, o conforto da navegação em condições adversas melhora. Mas, se o barco não estiver planando, o controle do barco pode ficar comprometido. Um casco planante fica mais estável quando está planando, graças à componente dinâmica introduzida pelo empuxo resultante do planeio. Além disso, o maior fluxo d’água passando pelo leme ou rabeta facilita o seu manejo. Leve o barco ao planeio e, usando o tacômetro e o GPS, trim e a rabeta totalmente para dentro (mais próxima da popa) e os flaps totalmente para baixo. A seguir, vá diminuindo a velocidade gradualmente em 200 rpm, deixando que ela se estabilize por, pelo menos, 1 minuto de cada vez, até que o barco deixe de planar. Como saber que o barco não está mais planando? Quando as ondas na popa deixarem de formar um “V” atrás do barco e a água não mais “fluir”na popa. Nesse ponto, acelere um pouquinho até que o barco inicie o planeio. Faça algumas curvas. Se o barco continuar planando, é essa a velocidade mínima. Anote e compare com outros barcos “finalistas” na sua lista. Se houver empate entre eles, o barco com a menor velocidade de planeio deve ser o escolhido, pois em caso de condições adversas poderá navegar melhor. 

4 – O ângulo do passageiro
Gostamos de chamar de tripulantes os amigos e familiares a bordo, pois faz com que participem mais dos acontecimentos a bordo, aumentando assim a diversão. Mas, durante um test-drive, sugerimos que dê uma de passageiro, como se nunca tivesse navegado. Sinta o barco nos diferentes locais em que eles normalmente ficarão, enquanto alguém pilota o barco. Veja como é o deslocamento a bordo, desde ao cockpit até o banheiro. Veja se há pega-mãos em quantidade suficiente e se se sente seguro enquanto vai de um lado a outro. O banco do co-piloto vibra enquanto navegam? O banco em “L” na popa recebe gases do escapamento a certas velocidades? Há alguma forma de spray constante que incomoda? As almofadas dos bancos se deslocam durante velocidades normais de cruzeiro? 

5 – Hélice certo
Depois de determinar qual a motorização adequada para seu barco, veja no manual qual a rotação máxima recomendada pelo fabricante. Durante o teste, veja no tacômetro qual a rpm máxima alcançada. Quanto mais próxima essa rotação estiver da máxima recomendada, melhor. Se não alcançar a faixa máxima, pode ser uma indicação de que o(s) hélice(s) não estão corretos. Um hélice com passo maior do que o recomendado (rotação muito baixa) pode ocasionar grandes danos no motor com o passar do tempo. Hélices com passo menor que o recomendado (rpm mais alta) pode ocasionar acumulo de carvão nos rolamentos e danificá-los. Um barco de testes deveria alcançar uma rotação mais próxima da faixa superior, de forma que ainda se mantenha nela quando a lancha estiver carregada, com seu fundo pintado com anti-incrustante e com os tanques cheios, elementos que fazem a rotação máxima se reduzir. 

6 – Só navegando
A maioria das lanchas novas informa ao piloto o consumo instantâneo, durante a navegação. Peça ao capitão ou à pessoa que está demonstrando o barco para ajustar o instrumento, a fim de mostrar o consumo em milhas por litro e anote os valores para as velocidades em que mais pretende navegar

Esse teste pode não ser importante para alguns. Na realidade, nenhum deles tem a intenção de ser um requisito para quem compra um barco. São apenas exemplos que podem ser úteis para uma grande parcela de usuários. E, o mais importante, servem para demonstrar que algumas características só podem ser avaliadas navegando. 

7 – Visibilidade
Preste atenção na conversa das pessoas em qualquer boat show e certamente ouvirá alguém reclamando que a visibilidade da estação de comando de tal barco não é boa. Achamos que esse tipo de comentário não é justo, uma vez que se trata de barcos encarretados sobre algum piso de exposição de concreto e não reflete necessariamente a condição durante a navegação.

Durante um teste, podemos nos referir à seção H-1 dos Standards da ABYC (American Boat and Yacht Counsil, ou Conselho Americano para Barcos e Iates) denominado “Campo de Visão da Posição de Comando”. Veja a seguir parte do que lá se especifica:

“Para que esse standard seja efetivo, o barco deve ser operado de forma razoável e prudente. Você deve estar consciente de que um barco pode ser operado de uma maneira e a certas velocidades que causam mudanças de atitude (rolagem ou trim) e que pioram a visibilidade. Esse standard não pode garantir que o barco possa perder parte da visibilidade quando operado com ângulos excessivos de trim, durante a transição para o planeio. Esse standard não exime o operador de atender a todos os requisitos para a navegação da Guarda Costeira dos Estados Unidos. Itens móveis, tais como passageiros, equipamentos ou capotas conversíveis devem estar sob total controle do operador e, portanto, não podem ser considerados como obstruções visuais para o fim dessa norma.”

Para saber se um barco está de acordo com a norma, são necessários vários equipamentos de medição e montagens que transcendem o que é possível para um leigo fazer durante um test drive, mas o conhecimento da norma possibilita que se observem certos aspectos ao comparar embarcações. Preste atenção na visão frontal e à ré, especialmente se o barco é equipado com hard top e a estação de comando é interna. Certifique-se de que é possível ver outras embarcações se aproximando pela popa ou quando estiverem ultrapassando por qualquer um dos lados. Verifique também qual a distância mínima da proa em que ainda é possível ver um objeto flutuando à sua frente, com o barco em atitude de cruzeiro. Ou então em que posição aquele farol ou torre de igreja saem do seu campo de visão. Use o radar ou GPS para medir essa distância, anote e compare com outros candidatos. Saiba que usar os flaps ou trim do motor são métodos aceitareis para melhorar o campo de visão.

8 – Cockpit autoesgotante
A ABYC, em sua seção H-4, determina que para que um cockpit seja considerado autoesgotante, o mesmo deverá ser capaz de retirar 75% de sua capacidade em até 90 segundos. Pense nisso e tente visualizar a situação. O diâmetro mínimo dos ralos, segundo a norma, deve ser de 2,5cm

Um teste mais simples pode ser realizado no barco atracado a um píer. Com uma mangueira d’água com boa vazão, veja como a água flui para fora do cockpit. A água se acumula antes de sair do barco? Lembre-se que uma boa onda vai colocar substancialmente mais água nele do que a sua mangueira jamais será capaz. A seguir, coloque bastante peso na parte mais à ré do barco e veja como se comporta. Mas, para ter uma ideia precisa da realidade, só mesmo fazendo um teste de mar.

9 – Rolagem
Para completar os testes de estabilidade do barco, veja como se comporta na rolagem, medindo o período. É o tempo que leva um barco para rolar de um lado a outro. Desamarre o barco. Então faça com que todos a bordo (e mais alguns passantes, se possível) se desloquem o máximo possível para um dos lados e então peça que se dirijam para o meio do barco. Use um cronômetro para medir o período que o barco leva para rolar de um lado a outro e voltar.

Um princípio da engenharia naval amplamente aceito para considerar um barco confortável para sua tripulação é de que o período em segundos deve ser igual à medida da boca em metros vezes 1,1. Ou seja, se o barco que você está testando tem uma boca de 2,5m, ele será confortável se o período for em torno de 3 segundos.

Barcos com índice menor do que 1 (rígidos) são menos confortáveis quando à deriva ou ancorados, enquanto que aqueles com com índice maior que 1,1 serão mais dóceis, com períodos maiores. Barcos com índices extremos, para qualquer dos lados, são desconfortáveis e até inseguros. Anote os dados e compare com outros candidatos. 

10 – Estabilidade
Eis aí outro teste que pode ser executado com o barco atracado. Coloque a tripulação toda em um dos bordos e, com a ajuda de um nível ou inclinômetro, veja quantos graus o barco pende nessa situação. Essa é uma das medidas para determinar a estabilidade estática. Em geral, barcos com grande estabilidade estática se movem de forma mais ligeira que os com menor estabilidade. Em suma, um barco com maior estabilidade estática tende a rolar em períodos mais curtos e mais rápidamente. Normalmente preferimos um barco com maior estabilidade estática em águas interiores, com menos ondas, enquanto que barcos com maior estabilidade total, ou seja, que se inclinam mais, porém sem seguir o formato da onda, são os preferidos para trabalhos em alto-mar. Não se detenha nos números absolutos e sim compare as anotações dos barcos que está considerando para compra.

11 – Navegação contra as ondas
Se o barco que está testando é para uso em alto-mar, você deve insistir em testá-lo em condições adversas. Vá para um local onde haja bastante ondas e navegue encarando as ondas frontalmente, ajustando a velocidade para obter o maior conforto. Anote a velocidade e a condição do mar (altura e período das ondas). Lembre-se que, para o teste ter validade, os dados e condições coletados devem servir para comparar os barcos que está considerando comprar. Navegue nesse rumo por alguns minutos. Além de gravar a sensação que o barco passa, tente sentir como a navegação afeta equipamentos montados a bordo, tais como capotas, torres ou T-tops. Eles estão bem firmes ou chacoalhando e causando ruídos? Será que as soldas e os pontos de fixação foram projetados para esse tipo de stress? Anote as suas avaliações.

12 – Navegação a favor das ondas
Repita o mesmo procedimento, dessa vez navegando a favor das ondas, ajustando a velocidade e o trim. Nessa condição, atente mais para o comportamento longitudinal do que para o conforto. Quanto diminui a velocidade do barco quando você alcança a parte de trás de uma onda? Quanto tem de acelerar para vencê-la? O barco tende a passar por cima ou por dentro delas (enterrar a proa)? Finalizada essa etapa, mude o rumo em 45o. É nessa condição que muitos barcos têm dificuldade de se manter no rumo. Qual o esforço necessário para que o barco navegue em linha reta? Use a bússola ou um ponto fixo em terra para fazer essa avaliação. Em geral, são mais úteis do que o GPS. Anote tudo, pois não há valores absolutos que possa comparar. Seu objetivo deve ser o de criar um banco de dados que permita comparar os barcos que está considerando comprar.

Essencial: contrate uma auditoria
Mesmo quem está comprando um barco novo pode se beneficiar se contratar um auditor profissional. Desde a garantia de que pequenas falhas sejam corrigidas antes da entrega (e não durante o período de garantia) à certeza de que o barco é adequado para o uso a que se propõe

No Brasil esta ainda é uma atividade recente e ainda não existe uma associação de auditores a que se possa recorrer para encontrar esses profissionais, mas eles podem ser indicados pelo pessoal que trabalha em marinas e iate clubes.